



Nos últimos anos, Luanda assistiu ao surgimento de várias plataformas digitais de transporte privado. Aplicações que replicam o modelo da Uber surgem com frequência, prometendo resolver o caos no trânsito, melhorar a segurança e trazer mais conforto aos cidadãos.
Mas a verdade é simples: o problema da mobilidade urbana em Luanda não se resolve com clones do Uber.
Porque o problema não é apenas tecnológico. É estrutural.
Luanda cresceu de forma acelerada e desordenada. A expansão urbana não foi acompanhada por um planeamento robusto de transportes públicos, corredores dedicados, integração modal ou incentivos à descentralização económica. O resultado é uma cidade onde milhares de pessoas atravessam longas distâncias diariamente para trabalhar, estudar ou aceder a serviços básicos.
Aplicações de transporte individual respondem a uma parte da procura, sobretudo da classe média urbana, mas não atacam o núcleo do problema: a falta de um sistema público ou privado de transporte eficiente, previsível e acessível.
Um clone do Uber aumenta o número de viaturas na estrada. Não reduz.
Se não houver políticas públicas que incentivem transporte colectivo de qualidade, corredores exclusivos para autocarros, melhoria da rede ferroviária urbana e organização do sistema de táxis e candongueiros, continuaremos a multiplicar carros num espaço viário limitado.
E mais carros significam mais congestionamento.
A mobilidade urbana é um sistema. Envolve infra-estruturas, regulamentação, tecnologia, planeamento territorial e comportamento social. Não é um problema que se resolva apenas com uma aplicação bem desenhada.
Outro ponto essencial é o poder de compra. Plataformas de transporte individual tendem a ter preços variáveis, sensíveis à procura. Para uma grande parte da população, o custo diário dessas viagens não é sustentável. Ou seja, estamos a falar de uma solução que serve um segmento, mas não resolve a mobilidade da maioria.
Além disso, há uma questão económica relevante: replicar modelos internacionais sem adaptação local pode criar empresas frágeis, dependentes de margens apertadas e promoções constantes ( o que já acontece hoje em dia com a Yango, InDrive e Heetch). A inovação verdadeira não está em copiar, mas em contextualizar.
Luanda precisa de soluções híbridas.
Precisa de integração entre transporte público e privado. Precisa de digitalização do sistema de autocarros, bilhética inteligente, dados em tempo real sobre fluxo de tráfego, planeamento urbano que reduza a necessidade de deslocações longas. Precisa de incentivos ao transporte colectivo empresarial. Precisa de políticas que promovam teletrabalho onde for possível.
E precisa, acima de tudo, de coordenação.
Não se trata de rejeitar a tecnologia. Pelo contrário. A tecnologia é parte fundamental da solução. Mas quando ela é usada apenas para replicar modelos externos, sem resolver os gargalos estruturais, transforma-se numa resposta superficial para um problema profundo.
O debate sobre mobilidade urbana em Luanda deve ser mais ambicioso. Deve envolver o sector público, startups, universidades, operadores tradicionais e urbanistas. Deve olhar para dados concretos, padrões de deslocação, densidade populacional e tendências de crescimento.
A mobilidade é produtividade. É qualidade de vida. É competitividade económica.
Enquanto continuarmos a acreditar que mais aplicações significam automaticamente melhor mobilidade, estaremos a tratar sintomas — e não a causa.
E Luanda já não precisa de paliativos. Precisa de estratégia.