


Os censos destinam-se a um exercício simples: contar pessoas. Quando falham, tornam-se um problema profundo. Angola está agora a lidar com essa consequência. O Recenseamento Geral da População e Habitação 2024 indicou 30,1 milhões de habitantes, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE)¹. Mas especialistas independentes estimam que cerca de 28,3% da população ficou por recensear² — um número que ultrapassa qualquer margem técnica aceitável.
As Nações Unidas recomendam que erros superiores a 10% sejam tratados como críticos³. O Brasil, mesmo com constrangimentos financeiros, registou 8,3% de subcontagem no seu censo de 2022, considerada “aceitável”⁴. Economias avançadas operam com margens abaixo de 2%. Angola e a África do Sul (com uma subcontagem de 31% em 2022) destacam-se por razões indesejáveis⁵.
Um erro desta escala não é estatístico — é estrutural. Sem números fiáveis, o país perde o seu “mapa demográfico”. Planeamento de escolas, hospitais, estradas ou redes energéticas tornam-se exercícios de intuição. No orçamento nacional, a incerteza espalha-se: a distribuição de verbas deixa de reflectir necessidades reais, e a projecção de receitas fiscais aproxima-se mais de um palpite do que de uma previsão.
A economia também paga o preço. Se a população real for maior do que a registada, o PIB per capita é artificialmente inflacionado, criando a ilusão de um país mais rico. Investidores estrangeiros, atentos ao tamanho de mercado e à qualidade das estatísticas, adoptam uma postura mais prudente. A falta de credibilidade estatística é, por si só, um risco macroeconómico.
O impacto político não é menor. Províncias e municípios subcontados tendem a receber menos fundos públicos e menor representação institucional. Organismos multilaterais, como o Banco Africano de Desenvolvimento e o FMI, dependem de dados censitários sólidos para calibrar políticas, projectos e avaliações de risco.
Há saídas possíveis. A ONU recomenda a realização de um Post-Enumeration Survey, uma auditoria técnica capaz de medir e corrigir a subcontagem⁶. Países com censos problemáticos têm recorrido a esta ferramenta para restaurar confiança. O reforço dos sistemas administrativos — registos civis, saúde e educação — também pode ajudar, embora em Angola estes sistemas ainda apresentem fragilidades significativas.
No fim, permanece a verdade simples: um país que não sabe quantas pessoas tem não sabe quanto precisa produzir, investir ou planear. Sem dados fiáveis, políticas públicas tornam-se exercícios de adivinhação. E economias modernas não prosperam no escuro.
INE Angola. Resultados Preliminares do RGPH-2024 Conferência de imprensa, Outubro 2024.
Expansão. “Censo 2024 foi reduzido a estimativas e perde validade para definir políticas públicas.” Outubro 2024.
United Nations Statistics Division. Principles and Recommendations for Population and Housing Censuses, Revision 3
IBGE Brasil. Post-Enumeration Survey – Censo Demográfico 2022
Statistics South Africa. Census 2022 Post-Enumeration Survey
UNFPA. Improving Census Accuracy through Post-Enumeration Surveys. 2023.