



A função do governo é garantir a liberdade, não substituí-la. -John Locke
Durante décadas, o Estado angolano assumiu o papel de principal dinamizador da economia nacional. Financiou, contratou, incentivou, protegeu. Do outro lado, o sector produtivo habituou-se a esta relação cómoda, quase romântica, onde o risco era mitigado e a inovação, frequentemente, secundarizada. Mas esta relação, outrora funcional, tornou-se um casamento de conveniência: estagnado, dependente e cada vez mais improdutivo.
O resultado? Um sector privado que, em grande parte, perdeu a sua vocação empreendedora. Empresas que vivem de concursos públicos, empresários que alinham estratégias com base no Orçamento Geral do Estado, e um mercado que só se mexe quando o Estado abre os cofres. Esta dependência estrutural tornou-se um travão ao desenvolvimento económico real.
Apesar das promessas de diversificação económica, a verdade nua e crua é que mais de 75% da economia activa angolana continua no sector informal [1]. Um indicador alarmante, mas sintomático de um sistema formal demasiado burocrático, hostil à criação de negócios e incapaz de gerar empregos em escala.
E há mais: quase 80% dos empregos em Angola são informais, segundo o Banco Africano de Desenvolvimento [2]. Estamos a falar de milhões de angolanos a trabalhar fora da protecção social, sem acesso ao crédito ou a qualquer plano de carreira. Esta informalidade não é escolha — é sobrevivência.
Por outro lado, o crescimento económico tem sido tímido e insuficiente para gerar transformação estrutural. Em 2023, o PIB cresceu apenas 0,9%, uma desaceleração face aos 3% registados em 2022 [3]. Muito aquém das necessidades de um país jovem e em rápida urbanização.
E quando olhamos para os sectores com maior potencial transformador — agricultura, indústria transformadora, tecnologias — o investimento é reduzido, a produtividade é baixa e a capacidade de escala, praticamente inexistente.
A verdade é que a maioria dos empresários nacionais não está a competir. Está a reagir. Espera por medidas, por apoios, por novos programas, por novas cestas básicas de financiamento público. Há uma cultura enraizada de aversão ao risco — um “empresariado” que muitas vezes actua mais como gestor de oportunidades políticas do que como criador de valor económico real.
Vou abrir aqui um parenteses para contar uma experiência muito recente:
Em 2022 à convite do Augusto Firmino, comecei a trabalhar na IZZY Seguros, uma solução tecnológica que usava canais flexiveis como telemoveis, quiosques e políticas de proximidade com as populações de baixa renda para levar inclusão ao mercado de seguros " Micro seguros, ou seguros de baixa renda". Obviamente a solução nunca foi efetivamente lançada, pois quando abordamos os players que actuavam no mercado, recebiamos sempre uma resposta negativa pelo facto dos micro seguros representarem um risco que eles não estavam dispostos a correr na altura.
Esse comportamento não é apenas consequência da falta de incentivos — é também reflexo de um modelo de desenvolvimento distorcido, em que o sucesso empresarial é quase sempre mediado pelo Estado, e raramente pelo mercado.
Está na hora de uma ruptura estratégica. Um divórcio saudável entre Estado e sector produtivo. Não para cortar relações, mas para redefinir funções. O Estado deve sair do papel de fiador e assumir-se como regulador, promotor de ambiente de negócios e garante da concorrência justa. O sector privado, por sua vez, tem de largar o vício da dependência e assumir a liderança da transformação económica.
Isto implica mais risco, mais investimento em inovação, mais exposição ao mercado global. Mas também significa mais liberdade, mais competitividade e mais impacto real.
Se queremos uma Angola produtiva, competitiva e inclusiva, temos de fechar de vez o ciclo do paternalismo económico. O futuro pertence a quem cria, a quem arrisca, a quem constrói com autonomia. E este futuro não será possível enquanto mantivermos o sector produtivo amarrado a uma máquina estatal que já não tem capacidade para sustentar o crescimento de todos.
O tempo dos namoricos já passou. É hora de relações maduras, com responsabilidade e com visão. O país merece mais.
[1] INE Angola. “Relatório de Estatísticas do Emprego Informal em Angola”.
[2] Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB). “Angola Economic Outlook 2024”. Disponível em: https://www.afdb.org/en/countries/southern-africa/angola/angola-economic-outlook
[3] African Development Bank, idem. PIB Angola 2023.
[4] Reuters. “Angola’s Central Bank Holds Key Interest Rate as Inflation Slows”, 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/markets/rates-bonds/angolas-central-bank-holds-key-interest-rate-2025-01-21